segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Despertar III





O que diriam os mais velhos, os anciões, Antediluvianos, ou quaisquer imortais antigos, sobre o fato do primeiro deles, uma criatura tão poderosa que sequer precisa de sangue, que pode voar pelos ares, pode percorrer distâncias em segundos apenas com a força do pensamento, no entanto, ele prefere caminhar, fazendo-o por entre a turba de mortais, entre suas construções de pedra e areia, vendo, rindo, achando triste o modo de vida da nova era...

Ele lembra dos tempos ancestrais, antes das cidades, automóveis, quando a noite era de fato negra e cheia de trevas. Nesta era é difícil discernir o dia da noite, tudo é cor, luz, brilho e barulho. Os mortais sobrevivem com tantas coisas dispensáveis, são obesos, obtusos, despreocupados com tudo o que acontece ao seu redor. Destroem o mundo, e não se importam com nada!

Caim caminhou pela calçada de uma rua qualquer em uma cidade qualquer, para ela a geografia e os nomes dados as cidades e países não fazem diferença. Mantinha as mãos nos bolsos do casaco , sentindo no rosto o vento frio e cortante do inverno. Manteve a cabeça abaixada e, apesar de quem e o que ele é, facilmente foi confundido como apenas mais um transeunte, mais um humano caminhando, voltando do trabalho, indo para casa, ou encontrar com os amigos.

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Uma porta é aberta. Eu interrompo meus passos e vejo uma mulher mortal de notável beleza abandonar uma casa e correr como se a sua vida dependesse da velocidade dos seus passos. Acompanhei-a apenas com o olhar. Ela correu, atravessou a rua e se enfiou num beco sujo, aliás, mais um entre tantos nessa cidade que fede como uma latrina.

Eu continuei caminhando, na verdade, foi até espantoso o tempo que dediquei olhando para aquela humana... algo nela inegavelmente chamou a minha intenção... Ainda assim prossegui, e quando pretendia dobrar uma esquina e sumir, talvez indo pelos ares ou escolhendo um ponto especifico do globo, senti a presença da escória que compartilha do meu sangue. Em suas mentes pude ver os atos maléficos de vampiros que vagam pela noite tratando os humanos como gado, brincando com suas vitimas assim como gatos fazem com os ratos. E é este o meu legado...?

Não!

Um deles tinha poder suficiente para notar minha presença. Ele arregalou os olhos quando me viu. Não creio que soubesse quem eu sou, apenas julgou-me pelo poder que emano, certamente julgou estar diante de um dos antigos, mas não o mais antigo de todos.

Meus dedos se fecharam sobre o braço daquele que segurava a moça e, exercendo uma força tão diminuta e irrisória eu separei seu membro do corpo. E ele gritou, com o som de seu rugido ecoando por quase todo aquele bairro. Enquanto um dos seus irmãos, talvez o mais fraco e imprudente, correu e saltou em minha direção, achando que podia defender seu amigo... Tolos estúpidos, são estes os meus filhos... Eu brandi o braço decepado, atingindo-o em pleno ar e o vi voar para longe, indo cair por cima de latas abarrotadas de lixo. O outro ainda estava parado com os olhos arregalados fixos em mim.

"Suma daqui!"
- foram as palavras que enviei em sua mente. Antes de ir, vi-o curvar a cabeça como se fizesse uma deferência a mim, mas na verdade, foi apenas por medo. Talvez pelo medo eu possa mudar todos... talvez...

Estava escuro demais em todo o beco. A mortal poderia ter ouvido os gritos, mas não ter visto exatamente tudo o que ocorreu. Dei as costas a ela e segui com a plena e convicta intenção de ir embora, mas parei... Recuei, voltando até a moça que caiu ao chão no momento da confusão. Lembrei-me dela correndo, e daqui pra frente sempre me lembrarei dela assim... A menina que corria pra se esconder da vida... De certo é o que eu tenho feito, vagando como um fantasma, procurando por redenção sem saber de que forma encontrá-la...

_ Está segura agora! - ofereci-lhe minha mão.

O Despertar II



Rosalie.

_Você é apenas uma prostituta de luxo, Rosalie... Qual dessa mísera conjunção de palavras você não entendeu? - Em silêncio deixou o vestido semi destruído resvalar pelo corpo dolorido enquanto o rosto mantinha-se impassível. Já agüentara coisas piores do que a pressão daqueles punhos sobre as costas brancas.

_ E lhe perdôo por esta atitude, pois ainda me deve e não quero que desperdice o dinheiro daqueles homens lá embaixo. - Travou da pequena bolsa, amassando-a entre os dedos crispados, ignorando a dor lancinante que parecia queimar-lhe as costas e observou-o se aproximar. Os lábios se vergaram em um leve sorriso e viu aquelas belas sobrancelhas se arquearem.

_ Está rindo, Rosalie? Estás rindo de mim? – aquele sussurro letal misturado à carícia áspera que ele fazia em seu rosto.

_ Não... Estou pensando no quanto você parece desesperado e estou me regozijando por isso... Ainda depende dessa simples prostituta de luxo para se safar...

E então, ele sorriu e aquele sorriso a desesperou mais do que os tapas anteriores. Doente. Louco.

- Apenas, faça o que quero, Rosalie... E manterei em bom estado de uso aquilo que precisa...- Ele a libertou e ela lançou-se em direção à porta, descendo as escadas da casa em uma corrida louca, sem se preocupar com os olhares de escárnio ou mesmo pena. A rua escura onde os carros luxuosos deixavam seus proprietários a recebeu e ela virou-se na direção oposta às luzes da cidade. Recostou-se contra a parede enegrecida e úmida da rua solitária onde o único ser vivente era ela e então, as lágrimas copiosas rolaram pela face deixando seu rastro luminoso.

‘- Apenas, faça o que quero, Rosalie... E manterei em bom estado de uso aquilo que precisa...

O tremor desesperado fez o coração faltar em um compasso. Quando aquela sua mísera vida ia simplesmente acabar-se? Quando ia simplesmente deixar de ser Mary Lou? Rosalie? Ou qualquer outro maldito nome? E então, o palavreado rude vindo das sombras a deixou alerta. Três. Capas negras arrastando-se pelo chão enlameado. Os olhos azuis voltaram-se para o outro extremo da rua onde mais um aparecera. Estava perdida. Talvez o demônio houvesse resolvido atender-lhe o pedido. Não, não! A voz gritou no fundo de sua mente. Assim não. Agora, não... Mas, os céus não a ouviam há tempos... Deus a esquecera naquela porta de orfanato.

- Uma boneca perdida, Steve... – a voz fez subir por seu corpo a repulsa imediata e ela tocou com a ponta dos dedos a pequena faca de abrir cartas. Ganhara de Jennie. E possivelmente lhe abriria as portas do inferno. Doce Jennie. Não poderia cumprir com o dever que lhe fora incumbido.

- Perdoe-me, minha querida... – sussurrou com os olhos fixos nas sombras que agora se tornavam assustadoramente reais.

Sentiu o toque nos braços nus. O estômago revirou ao imaginar para o que seria usada e chegou a desejar os punhos de Edward. Logo se viu cercada pelo bando e deixou a pequena bolsa cair ao chão. A faca pequena e sem corte brilhou em sua mão e o riso dos homens fez o fogo interno do ódio faiscar de seus olhos por entre as mechas do cabelo louro. Ergueu a mão e lançou-se contra o mais próximo e então, antes que completasse o movimento sentiu os braços serem vergados para trás com força. O bafo quente e fétido em seu pescoço a fez contrair-se.

- Vai desejar a morte antes de acabar, pequena... – ouviu e teve certeza de que a afirmação era correta.

O Despertar.

Construí com minhas próprias mãos. Pintei todos os arabescos, as imagens, até mesmo refiz a malfadada história do primeiro crime, a primeira morte, a primeira vida de um mortal, ceifada pelas mãos de teu próprio irmão.

Não um lugar de descanso, mas um templo de morte, para aquele que jamais a encontrará; um lugar onde jamais haverá despertar.

E no sétimo dia, assim como o criador, eu repousei, e os séculos viraram poeira enquanto eu dormia dentro da minha igreja.

Vi as mudanças no mundo mortal com os poderes da minha mente. Meu corpo jazia deitado no templo, mas ainda assim, eu acompanhei todas as mudanças do mundo, adaptei-me, descobri suas descobertas. Vi e senti a energia elétrica. Vi todos os milagres da ciência moderna, e senti-me algo esquecido, algo de um passado tão longínquo e distante que sequer acreditam que um dia eu possa ter existido.

Vi aqueles que carregam meu sangue se multiplicarem ao contrário de minhas ordens. Não me importei. Meus filhos bebem dos mortais, conspurcam os humanos, trazem-nos para as trevas, dividem-se, lutam entre si, almejam cada vez mais poder, mais sangue. Não me importei. O mundo, os humanos, os filhos do meu sangue, não são de minha importância. A responsabilidade não é minha...

E então ele veio a mim nos sonhos.

Chovia em Nod. Abel corria a minha frente, tão rápido como sempre ele fora. Eu o seguia, ora gritava, ora parava pra tomar fôlego, eu ainda era mortal. Numa pequena clareira, Abel estava de pé no alto de uma pedra.

_ Você tem de acordar, é chegada a hora, a Gehenna... - disse meu irmão. Sangue corria pela sua face, vindo da ferida em sua cabeça, a mesma que eu provocara quando de sua morte.

_ É mesmo você, Abel? - perguntei inutilmente.

_ É sua responsabilidade, Caim. - retrucou Abel.

_ Eu não me importo. – redarguí. _ Porque eu deveria me importar com humanos e sugadores de sangue? Não me interesso por nenhum deles e nem por esse mundo, nem por esse Deus que incita irmão contra irmão. Que meus filhos inundem este mundo com sangue, e, afoguem-se todos; mortais e imortais. E se o seu Deus fizer objeção, que mande seus anjos virem combater-nos, assim como os mandou amaldiçoarem-me.

Abel saltou da pedra e caiu a minha frente. Tocou minha face com ambas as suas mãos e me beijou nos lábios.

_ Tudo mudou, meu irmão, depois da vinda do Filho, tudo mudou... – interrompi-o.

_ Eu estava lá, Abel, e para mim Jesus morreu em vão...

Abel recolheu suas mãos e caminhou para trás, afastando-se de mim. Eu cai de joelhos.

_Eu só quero o seu perdão, Abel. – supliquei. Abel se afastou ainda mais. Logo, as sombras o envolveram e eu soube que não o veria mais por agora... Fiquei de pé e gritei;

_ Eu só quero o seu perdão, meu irmão. – minhas palavras se perderam entre as gotas de chuva e as sombras.



Eu sou aquele que dorme, mas tudo vê, aquele que perdura acima do tempo, aquele que nunca descansa, aquele que levantou a mão contra sua própria carne e sangue. Sou Caim de Nod, o primeiro.



O tempo passou.



Responsabilidade...

Meus olhos se abriram. E mais uma vez, depois de milénios, meus pés fincaram-se ao chão. Minha mente vasculhou o mundo, procurando entre mortais e imortais, escolhendo, procurando aquele que terá a incumbência de escolher...

"Amaldiçoado é você, Caim que matou seu irmão".

Eu sonho com os primeiros tempos. A memória mais longa que eu falo dos primeiros tempos. O mais velho Pai que eu canto dos primeiros tempos e o amanhecer da Escuridão.

Em Nod , onde a luz do Paraíso iluminava o céu noturno e as lágrimas de nossos pais molhou o solo
Cada um de nós, de algum modo, define viver e levar nosso alimento da terra.

E eu, Caim o primeiro-nascido, eu, com coisas afiadas, plantei as sementes escuras, as molhei nas suas covas de terra, as assisti crescer.

E Abel o segundo-nascido, cuidou dos animais, ajudado por seus herdeiros de sangue, alimentaram-se deles, os assistiu crescerem.

Eu o amo, meu Irmão, Ele era o mais luminoso, O mais doce. O mais forte. Ele foi o primeiro atrevido de toda minha alegria. Então um dia que nosso Pai disse a nós, Caim, Abel, sobre mim vocês tem que fazer um sacrifício - um presente da primeira parte de tudo aquilo que vocês tem.

E eu, Caim o primeiro-nascido, eu juntei os brotos tenros, as frutas mais luminosas, a mais doce grama. E Abel, o segundo-nascido, Abel sacrificou o mais jovem, o mais forte, o mais doce dos seus animais. No altar de nosso Pai nós pusemos nossos sacrifícios e acendemos fogo debaixo deles e assistimos a fumaça os levar até o Único Acima.

O sacrifício de Abel, o segundo-nascido, cheirou docemente ao Único Acima
e Abel foi santificado. E, eu, Caim o primeiro-nascido, eu fui golpeado de além por uma palavra severa e uma maldição, por meu sacrifício ser desmerecido.

Eu olhei o sacrifício de Abel, ainda fumegando, a carne, o sangue. Eu chorei, eu cerrei meus olhos eu rezei noite e dia. E quando o Pai disse o tempo por Sacrifício veio novamente e Abel conduziu seu mais jovem, seu mais doce, seu mais amado para o fogo sacrificatório, eu não trouxe meu mais jovem, meu mais doce, porque eu sabia
o Único Acima não os Quereria. E meu irmão, amado Abel disse para mim: "Caim, você não trouxe um sacrifício, um presente da primeira parte de sua alegria, para queimar no altar do Único Acima..."

Eu chorei lágrimas de amor por mim, com ferramentas afiadas, sacrifiquei a que foi a primeira parte de minha alegria, meu irmão.

E o Sangue de Abel cobriu o altar e cheirou docemente quando queimou
Mas meu Pai disse: "Amaldiçoado é você, Caim que matou seu irmão".

Eu fui expulso assim como deveria ser. Ele me exilou para vagar na Escuridão, a terra de Nod.

Eu voei na Escuridão eu não vi fonte de luz e eu tive medo.Eu estava só na Escuridão e eu tive fome. Eu estava só na Escuridão e eu tive frio. Eu estava só na Escuridão e eu chorei.

Então veio até mim uma doce voz, uma voz de mel, palavras de auxílio, palavras de conforto.
Uma mulher, sombria e adorável, com olhos que perfuravam a escuridão, veio a mim.
"Eu conheço sua história, Caim de Nod". Ela disse, sorrindo. "Você tem fome. Venha! Eu tenho comida. Você tem frio. Venha! Eu tenho roupas. Você está triste. Venha! Eu tenho conforto..."

Quem confortaria um Amaldiçoado como eu? Quem me vestiria? Quem me alimentaria?.

"Eu sou a primeira esposa de seu Pai, Quem discordou com o Único Acima e ganhou Liberdade na Escuridão. Eu sou Lilith."

Uma vez, eu tive frio, e não havia nenhum calor para mim. Uma vez, eu tive fome, e não havia nenhuma comida para mim. Uma vez eu estava triste, e não havia nenhum conforto para mim..
Ela me alojou, ela me alimentou. Ela me vestiu. Nos braços dela, eu achei conforto.
Eu chorei até sangue gotejar de meus olhos, e ela os beijou.