
O que diriam os mais velhos, os anciões, Antediluvianos, ou quaisquer imortais antigos, sobre o fato do primeiro deles, uma criatura tão poderosa que sequer precisa de sangue, que pode voar pelos ares, pode percorrer distâncias em segundos apenas com a força do pensamento, no entanto, ele prefere caminhar, fazendo-o por entre a turba de mortais, entre suas construções de pedra e areia, vendo, rindo, achando triste o modo de vida da nova era...
Ele lembra dos tempos ancestrais, antes das cidades, automóveis, quando a noite era de fato negra e cheia de trevas. Nesta era é difícil discernir o dia da noite, tudo é cor, luz, brilho e barulho. Os mortais sobrevivem com tantas coisas dispensáveis, são obesos, obtusos, despreocupados com tudo o que acontece ao seu redor. Destroem o mundo, e não se importam com nada!
Caim caminhou pela calçada de uma rua qualquer em uma cidade qualquer, para ela a geografia e os nomes dados as cidades e países não fazem diferença. Mantinha as mãos nos bolsos do casaco , sentindo no rosto o vento frio e cortante do inverno. Manteve a cabeça abaixada e, apesar de quem e o que ele é, facilmente foi confundido como apenas mais um transeunte, mais um humano caminhando, voltando do trabalho, indo para casa, ou encontrar com os amigos.
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Uma porta é aberta. Eu interrompo meus passos e vejo uma mulher mortal de notável beleza abandonar uma casa e correr como se a sua vida dependesse da velocidade dos seus passos. Acompanhei-a apenas com o olhar. Ela correu, atravessou a rua e se enfiou num beco sujo, aliás, mais um entre tantos nessa cidade que fede como uma latrina.
Eu continuei caminhando, na verdade, foi até espantoso o tempo que dediquei olhando para aquela humana... algo nela inegavelmente chamou a minha intenção... Ainda assim prossegui, e quando pretendia dobrar uma esquina e sumir, talvez indo pelos ares ou escolhendo um ponto especifico do globo, senti a presença da escória que compartilha do meu sangue. Em suas mentes pude ver os atos maléficos de vampiros que vagam pela noite tratando os humanos como gado, brincando com suas vitimas assim como gatos fazem com os ratos. E é este o meu legado...?
Não!
Um deles tinha poder suficiente para notar minha presença. Ele arregalou os olhos quando me viu. Não creio que soubesse quem eu sou, apenas julgou-me pelo poder que emano, certamente julgou estar diante de um dos antigos, mas não o mais antigo de todos.
Meus dedos se fecharam sobre o braço daquele que segurava a moça e, exercendo uma força tão diminuta e irrisória eu separei seu membro do corpo. E ele gritou, com o som de seu rugido ecoando por quase todo aquele bairro. Enquanto um dos seus irmãos, talvez o mais fraco e imprudente, correu e saltou em minha direção, achando que podia defender seu amigo... Tolos estúpidos, são estes os meus filhos... Eu brandi o braço decepado, atingindo-o em pleno ar e o vi voar para longe, indo cair por cima de latas abarrotadas de lixo. O outro ainda estava parado com os olhos arregalados fixos em mim.
"Suma daqui!" - foram as palavras que enviei em sua mente. Antes de ir, vi-o curvar a cabeça como se fizesse uma deferência a mim, mas na verdade, foi apenas por medo. Talvez pelo medo eu possa mudar todos... talvez...
Estava escuro demais em todo o beco. A mortal poderia ter ouvido os gritos, mas não ter visto exatamente tudo o que ocorreu. Dei as costas a ela e segui com a plena e convicta intenção de ir embora, mas parei... Recuei, voltando até a moça que caiu ao chão no momento da confusão. Lembrei-me dela correndo, e daqui pra frente sempre me lembrarei dela assim... A menina que corria pra se esconder da vida... De certo é o que eu tenho feito, vagando como um fantasma, procurando por redenção sem saber de que forma encontrá-la...
_ Está segura agora! - ofereci-lhe minha mão.
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