segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Despertar.

Construí com minhas próprias mãos. Pintei todos os arabescos, as imagens, até mesmo refiz a malfadada história do primeiro crime, a primeira morte, a primeira vida de um mortal, ceifada pelas mãos de teu próprio irmão.

Não um lugar de descanso, mas um templo de morte, para aquele que jamais a encontrará; um lugar onde jamais haverá despertar.

E no sétimo dia, assim como o criador, eu repousei, e os séculos viraram poeira enquanto eu dormia dentro da minha igreja.

Vi as mudanças no mundo mortal com os poderes da minha mente. Meu corpo jazia deitado no templo, mas ainda assim, eu acompanhei todas as mudanças do mundo, adaptei-me, descobri suas descobertas. Vi e senti a energia elétrica. Vi todos os milagres da ciência moderna, e senti-me algo esquecido, algo de um passado tão longínquo e distante que sequer acreditam que um dia eu possa ter existido.

Vi aqueles que carregam meu sangue se multiplicarem ao contrário de minhas ordens. Não me importei. Meus filhos bebem dos mortais, conspurcam os humanos, trazem-nos para as trevas, dividem-se, lutam entre si, almejam cada vez mais poder, mais sangue. Não me importei. O mundo, os humanos, os filhos do meu sangue, não são de minha importância. A responsabilidade não é minha...

E então ele veio a mim nos sonhos.

Chovia em Nod. Abel corria a minha frente, tão rápido como sempre ele fora. Eu o seguia, ora gritava, ora parava pra tomar fôlego, eu ainda era mortal. Numa pequena clareira, Abel estava de pé no alto de uma pedra.

_ Você tem de acordar, é chegada a hora, a Gehenna... - disse meu irmão. Sangue corria pela sua face, vindo da ferida em sua cabeça, a mesma que eu provocara quando de sua morte.

_ É mesmo você, Abel? - perguntei inutilmente.

_ É sua responsabilidade, Caim. - retrucou Abel.

_ Eu não me importo. – redarguí. _ Porque eu deveria me importar com humanos e sugadores de sangue? Não me interesso por nenhum deles e nem por esse mundo, nem por esse Deus que incita irmão contra irmão. Que meus filhos inundem este mundo com sangue, e, afoguem-se todos; mortais e imortais. E se o seu Deus fizer objeção, que mande seus anjos virem combater-nos, assim como os mandou amaldiçoarem-me.

Abel saltou da pedra e caiu a minha frente. Tocou minha face com ambas as suas mãos e me beijou nos lábios.

_ Tudo mudou, meu irmão, depois da vinda do Filho, tudo mudou... – interrompi-o.

_ Eu estava lá, Abel, e para mim Jesus morreu em vão...

Abel recolheu suas mãos e caminhou para trás, afastando-se de mim. Eu cai de joelhos.

_Eu só quero o seu perdão, Abel. – supliquei. Abel se afastou ainda mais. Logo, as sombras o envolveram e eu soube que não o veria mais por agora... Fiquei de pé e gritei;

_ Eu só quero o seu perdão, meu irmão. – minhas palavras se perderam entre as gotas de chuva e as sombras.



Eu sou aquele que dorme, mas tudo vê, aquele que perdura acima do tempo, aquele que nunca descansa, aquele que levantou a mão contra sua própria carne e sangue. Sou Caim de Nod, o primeiro.



O tempo passou.



Responsabilidade...

Meus olhos se abriram. E mais uma vez, depois de milénios, meus pés fincaram-se ao chão. Minha mente vasculhou o mundo, procurando entre mortais e imortais, escolhendo, procurando aquele que terá a incumbência de escolher...

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